🌪️e como uma sanfoninha de cola virou metáfora de sobrevivência
Por Cristiane Fraga
O dia da prova de Física IV na UFRJ tinha tudo para ser apenas mais um episódio da minha saga acadêmica.
Mas, comigo, o Universo não perde uma oportunidade de compor uma crônica — daquelas que depois você conta rindo, mas na hora… bom, na hora a alma tentou sair do corpo.
Física IV parecia ter sido escrita por entidades cósmicas em plena exaltação matemática.
Era fórmula demais, memória de menos.
E assim nasceu minha obra-prima: uma sanfoninha de cola, dobrada com a precisão de um origami desesperado.
Guardei dentro de um pacotinho de chiclete.
Perfeita. Camuflada. Indetectável.
Ou assim eu acreditava.

Sentei para a prova. Respirei. Ou tentei.
A professora veio direto na minha mesa.
— Posso pegar um chiclete? — perguntou, com a naturalidade de quem pede um copo d’água.
Meu coração saiu do corpo, rodou a Via Láctea, trombou com um fóton e voltou.
A voz que saiu de mim não era exatamente humana:
— Pode…
Ela abriu o pacote.
Encontrou a sanfoninha.
Ergueu como quem segura uma prova do crime.
E disse apenas:
— Isso aqui você guarda.
E foi embora.
Fiquei ali, entre o alívio e a vergonha, mergulhada em silêncio, juventude e destino.
Anos depois entendi: naquele instante, o Universo me avisou que minha vida não seria linear.
O caos já estava ali — e eu, tentando sobreviver com humor, desde sempre.
🌅 CORTE PARA O PRESENTE: O PARAÍSO
Muitas vidas depois — porque eu já vivi várias dentro da mesma — caminho hoje por uma das praias mais lindas do país.
Moro num lugar que parece obra de Deus em dia inspirado.
Nos fones, começa a tocar Cidade Negra:
“Você não sabe o quanto eu caminhei
Pra chegar até aqui…”
E eu sorrio sozinha, porque é verdade.
Porque eu sei o quanto caminhei — por dentro e por fora.
As noites sem dormir.
As montanhas internas.
As decisões difíceis.
As mudanças radicais.
Os armengues que deram certo — e os que explodiram no meu colo.
As pessoas que cruzaram meu caminho, as que ficaram, as que se perderam.
A coragem de recomeçar do zero mais de uma vez.
“Percorri milhas e milhas antes de dormir
Eu nem cochilei…”
E ali, com os pés na areia molhada, entendo:
A Física não me levou ao desespero.
A Física me empurrou para viver.
Para aprender que a vida é feita de sanfoninhas, sustos, quedas, reviravoltas e caminhos improváveis.
E que, no final, tudo isso constrói a estrada que nos leva ao mar.
Hoje, entre o caos e a ordem, entre o vento e a esperança…
eu caminho.
Sempre caminho.
Cris Caos & Ordem — transformando confusão em crônica e dor em poesia.

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