
Ilustração: caos técnico em crescendo — o bolero digital do DNS.
Cris Caos & Ordem — Episódio #2
Por Cristiane Fraga
Se esse site falasse,
não faria discurso técnico.
Provavelmente suspiraria.
Algo entre o cansaço e a cortesia, como quem pede paz num idioma próprio:
“Conosco, ninguém podosco.”
Não como ameaça —
mas como lembrete discreto de que há batalhas que duram meses
e terminam com um clique.
Eu comecei este site como quem passa café:
um gesto simples, cotidiano, quase automático.
O mundo dizia: “monte seu site em cinco minutos”,
e eu, crédula, arrastei pastas, comprei domínios, vi tutoriais estrelados por pessoas felizes
que clicavam em botões que, comigo, adquiriam um peso filosófico.
Cinco minutos, disseram.
Cinco meses depois, entre uma petição urgente e outra,
eu voltava ao site como quem revisita um fantasma benigno:
uma ideia inconclusa que insiste em viver.
Apontar, desapontar, apontar de novo.
Domínio que não aponta.
Servidor que não reconhece.
Suporte que não entende.
Site secundário sobre o qual eu não tenho domínio.
E outras pequenas guerras sem sangue.
A saga do DNS acompanhou a vida —
porque nada acontece isolado no mundo real.
Quando funcionava, eu celebrava como quem ganha sustentação oral no Supremo.
Quando não funcionava, eu entrava em dois modos possíveis:
tragédia íntima, do tipo:
“Se o mundo acabar em barranco, eu encosto.”
Ou combatividade silenciosa:
uma elegância ofendida, capaz de transformar irritação em frase lapidada:
“Venha, incompetente.”
— sem saber se eu falava do suporte, do DNS, ou da minha própria teimosia.
Minha fúria tem gramática.
Foi então que apareceu o Grilo Falante.
Não como personagem infantil,
mas como aquela lucidez que chega quando a vaidade se cansa.
A voz que surge depois da exaustão:
“Respira.
Não pira.
Eu te levo de mãos dadas.”
Obedeci não por fé,
mas por rendição adulta —
essa sabedoria que aparece quando a ironia já fez o seu trabalho.
Abri outro navegador.
E o que parecia guerra intergaláctica entre servidores era…
cache.
A memória teimosa do meu próprio computador
me mostrava uma versão antiga do mundo,
como se os últimos meses de esforço não tivessem existido.
Enquanto o universo atualizado
já estava certo desde ontem.
A tragédia técnica evaporou como se nunca tivesse existido.
O site abriu,
com a naturalidade quase ofensiva
de quem diz:
“Eu estava aqui o tempo todo.”
Eu ri.
Não pelo resultado,
mas pela revelação:
às vezes o mundo já mudou —
e nós continuamos vendo o passado.
A vida moderna exige talento contínuo
para lidar com sistemas que ninguém domina.
Fracassar em algo simples não é pastelão:
é sofisticação trágica.
Tudo é fácil para quem não precisa fazer.
Fui à praia depois.
Não por estética —
por método.
Como quem recita um mantra de sobrevivência digital:
um passo de cada vez.
Sem glória.
Sem heróis.
Sem moral.
Apenas uma mulher e seu site,
descobrindo que, no fundo, respirar é linguagem suficiente.
Se esse site falasse, diria, com a educação de um francês cansado:
“Conosco, ninguém podosco.”
E eu devolveria o meio sorriso de quem aprendeu
que a bravura, às vezes, mora na ironia —
e não no DNS.
Fim.

Leave a comment