Episódio: Sociedade Líquida, Limonada e Outras Formas de Não Virar Pedra

Episódio: Sociedade Líquida, Limonada e Outras Formas de Não Virar Pedra

Bauman chamou de sociedade líquida esse tempo em que tudo escorre: relações, promessas, certezas, compromissos.
A vida virou um conjunto de escolhas rápidas — e afetos descartáveis, embalados para “não dar trabalho”.

Na teoria, isso é sociologia.
Na prática, é segunda-feira.

É o “vamos marcar” que nunca marca.
É o “pode contar comigo” que some sem aviso.
É o amor que exige intensidade, mas não sustenta constância.
É a amizade que manda vídeo motivacional e foge quando você precisa de conversa.

E aí entra o meu lado doméstico-filósofo:
a vida me dá limões e espera que eu faça limonada sorrindo.

Acontece que, em tempos líquidos, até a limonada oscila.

Tem dia que eu faço uma versão equilibrada: água, açúcar, gelo, dignidade.
É quando eu consigo acreditar que maturidade é isso: transformar o ácido em algo bebível.

Tem dia que sai ácida, porque o mundo está especialmente eficiente em me lembrar que estabilidade é artigo de luxo.
A gente chama de “fase”.
Mas eu desconfio que é só o universo testando meu autocontrole com método científico.

Tem dia que sai amarga, e aí não adianta o discurso bonito:
a amargura é um aviso do corpo, um pedido de pausa, um “hoje não quero ser exemplo de resiliência para ninguém”.

E, em dias raros, ela sai doce — o que me deixa imediatamente desconfiada.
Não por pessimismo, mas por experiência: quando a vida está boazinha demais, geralmente ela está distraída… ou preparando alguma atualização automática.

No fundo, o problema não são os limões.
É a expectativa de que a gente viva anestesiado, performando leveza, como se sentir fosse um excesso.

Mas eu aprendi uma coisa:
o antídoto da sociedade líquida não é romantismo, nem frase de efeito.
É responsabilidade afetiva — com os outros e com a gente mesma.

Eu não quero amor perfeito.
Quero amor possível: presença, clareza, cuidado.
E quando isso não vem do mundo, eu volto para o básico: fazer a minha limonada com honestidade.

Porque “seguir em frente” não é sempre bonito.
Às vezes é só… necessário.

E tem dias em que o meu maior ato de resistência não é produzir, resolver, explicar, acolher.
É apenas respirar.

Em tempos líquidos, respirar é uma forma de permanecer inteira.
E, sinceramente, já é bastante.

Fim.


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